quando o tempo é cinza
há nuvens iluminadas pelo sol na minha mente
nuvens levemente coloridas em tons de amarelo
complementando o céu azul celeste
a última vez eu lembro bem
fui até o sul do país
porque disseram que a vista da lua era mais bonita
principalmente se fosse vista de uma roda gigante
e as lágrimas nos olhos que ardem
e o peito que acelera de ansiedade
promessas soltas que não recordo
me fez entender que todo sentimento é singular
dono de si e suficiente
para que não precisemos fugir para o céu de outra pessoa
quando o tempo é cinza


o amor é como uma manhã pluvial

é como perder as forças de uma luta em silêncio

é inquieto e não ter pressa

o amor é a segunda-feira dentro do peito

é gritar sem sair voz
é sorrir com os olhos

o amor é cada pequeno movimento que as folhas fazem quando há vento

amor é quando a gente não lembra que teve alguma escolha e ainda sim, escolheu

o amor é sem querer quando se quer

o amor é quando se quer sem mesmo querer

é a náusea da saúde

é a virtude disfarçada de defeito
é o desleixo da dedicação

o amor é o descuido do cuidado
é a emergência da procrastinação

é como uma página em branco de um caderno de bolso

é tentar pensar em qualquer coisa que possa defini-lo e só conseguir pensar em uma coisa

e mesmo assim não encontrar sequer uma palavra que consiga o elucidar
Tenho acordado tarde, sempre acho que tem alguma coisa errada comigo. Às vezes eu acho que a vida é apenas olhar para o mar e escutar o som das ondas se formando no horizonte. Às vezes eu não acho nada. 
Os pequenos espaços de tempo de euforia e veracidade que tenho no cotidiano é o tempo que levo no transporte público quando consigo juntar a melodia que carrego nos fones de ouvido para a paisagem fora da janela, mas ultimamente tenho notado que tudo anda sem sincronia. 
Fico entediada, sinto um cansaço que vem do nada e não vejo a hora de dormir novamente. 
Eu notei que todas as vezes que acordo eu consigo perceber de cara como vai ser todo o resto do meu dia. 
Eu notei que todas às vezes que conheço alguém eu consigo sentir de cara se o amarei por muito tempo. 
E o tempo é incontável enquanto vivemos, a vida é tempo enquanto contamos. 
todas as pessoas
e seus mundos frágeis e inseguros
então eu me sinto só
e isso nunca foi tão plausível
não as olho nos olhos
não as toco como tocava
eu sequer canto suas canções
não uso vírgulas e rimas
não danço em seus corpos nus
não me visto perto delas
me mudo para o andar de cima
e me isolo de todo esse cortejo social
esses tantos e estranhos modos meus
me afligem como
cada frase pragmática e mal alinhada
cima a cima
baixo a baixo
que pesa quando me toca
que pesa quando se lê





como uma ilha
que de vez em quando
tem conversas profundas
com o oceano


um bêbado caiu em um mar de palavras e se afogou
a cidade entrou em luto
as pessoas rezavam poesias para que sua alma saísse do limbo
não sabe ao certo se existira céu ou inferno
porque a população tinha a crença da condenação e o paraíso
porém, eram poucos e sempre tinham
aqueles que viviam da convicção
de que o limbo era o único lugar seguro
por ser tão incerto e indefinido
pressa de viver/o outro anônimo 

são apenas acordes vocais
e sorrisos congelados
nas ruas desconhecidas de Bonsucesso

são apenas impulsos 
e o acalanto em desalento
de uma pobre alma suja pelo regresso

um círculo vicioso 
para cada minuciosa manhã 
de domingo ensolarado

e eu o dedico infinitamente
para aquele que passou
sem jamais ter estado

por convicta
andei por suas terras quentes
nadei pelos seus rios mais profundos
e vi esmeralda brilhando no fundo deste
em queda pelo seu abismo
segurar suas mãos com toda magnitude
e sentir a estranheza mais linda
que é voar sem ao menos ter o pungimento
para possuir suas asas
te(n)são

contrações
espasmos
sudorese
batimento acelerado
voltar-me-ei
para a brisa
rodeada
pela bonita melancolia
do cais
minha amada gaivotinha
ao mangue de sal que me espera
o ocaso do cais, um acaso:

revirei-me do avesso
para te merecer em acalento


vamos evocar o oceano com azul
dessarte o amor está para o mar
para que inclinamos nossa leveza a ela

pois tudo aquilo que é fardo
afunda
pássaros e cigarras


Às vezes minha mente se torna uma jaula escura e limitada, às vezes quero gritar, porém sinto um alívio porque jamais vão me ouvir. Eu deito e velejo para o infinito escuro sobre a minha cabeça. Em solilóquio, palavras soltas com um sorriso ameno nos lábios: árvores, pássaros, pistache, notas sequenciais, o tom frio das cores do inverno, neve, lareira, praia vazia, caminhada noturna, cigarro de filtro vermelho, cortinas xadrez, vento que dança com as folhas soltas no chão, uma garrafa de vinho pela metade, ilhas, gaivotas e saudade.
E de repente sinto brotar galhos de trepadeiras no meu coração e elas cobrem toda minh'alma para que
os pássaros e as cigarras
possam
finalmente
cantar.
mesmo se eu pudesse
contar em passos
os caminhos que a vida segue
eu ficaria aqui sentada
por toda uma eternidade
só pra ver o que acontece


e o que me viria?
os beijos
infinitos
que eu não te dei
Para Soledade.

Depois de uma longa espera pelo próximo ônibus na rodoviária da capital do Rio Grande do Sul, acordei pela manhã em uma estrada coberta por Hortências. O ar era incrivelmente fresco. O campo era mais verde do que a do cerrado e o outono me era o mais afetuoso inverno. Os pampas sumiam no horizonte e as plantações eram iluminadas pela aurora. Eu estava tão sonolenta que mal conseguia ouvir o barulho do motor do ônibus e entre as súbitas escalas de cochilo, me despertavam os olhos para cada paisagem diferente. Às vezes, o sol sumia entre infinitas filas de araucárias de alguma estrada mais estreita, depois faziam-se riscos de sol iluminando de forma simétrica o corredor do ônibus para que, em seguida, fosse visto pela janela algum outro campo de alguma plantação de trigo que, mais uma vez, fora iluminado pelo sol. 
Antes de ir para Soledade, um ano antes, eu precisei pegar um avião até Córdova, de Córdova para Mendoza e de Mendoza, para Santiago do Chile. Depois de aguardar algumas horas pelo próximo vôo, chego a Punta Arenas com a trilha em pauta para o fim do trajeto: Puerto Natales. 
De longe só se via o contraste de montanhas e as pequenas casas coloridas de uma cidade de apenas dezenove mil habitantes. Um frio congelante em pleno verão, aquecedores, paredes de aquarela, tarde ensolarada e por fim, ruas desertas e vazias. No centro da cidade, uma pequena praça para contemplação. Os bares com mesas nas calçadas não existia nesse lado da Patagônia. As casas eram de madeira, os bares eram de madeira e as portas ficavam sempre fechadas por causa do frio. As principais bebidas eram vinho e uísque e as músicas, por surpresa, eram bem familiares.
Eu não sei bem o que era. Também o cansaço, a maldita turbulência pega atravessando as cordilheiras e ao mesmo tempo, o alívio por não ter feito o trajeto de carro. Puerto Natales foi como encontrar um baú de ouro no fim de um Arco-íris. Se existe um espaço na consciência onde os desejos ocultos ficam guardados, lá estava uma cidade pequena escondida pela Neblina, pelo vasto campo vazio e a contemplação de um horizonte infinito, mesmo que, dessa vez, não rodeada por montanhas cobertas de gelo.
Diferente de Puerto Natales, Soledade é uma cidade com o dobro do tamanho, tanto em população como em espaço. Atrás da Rodoviária Municipal, alguns Pinheiros fazem música quando o vento resolvem tocá-los. O silêncio é confortante e o outono é tão leve quanto as folhas secas jogadas no gramado das praças. Não lembro quantas avenidas tinha, não que isso importe. Não lembro se já andei por toda a cidade, não que isso também importe. Mas comecei a notar que tudo se encaixava desde o primeiro momento que pisei meus pés naquela cidade. Mesmo que, no momento, eu não conhecesse alguém que me fizesse querer ficar. Bastando a insistência dos meus desejos mais pirrônicos, eu fiquei.
Eu a fotografei com meus olhos em pleno inverno quando as ruas ficavam cobertas por neblina em vespertino. Eu a escrevi poesias na vista de um apartamento grande e vazio. Especulando o silêncio nos caminhos entre um bar e outro, a espera de nada. Andei por ruas pavimentadas por pedras e asfalto liso. Observei a chuva cair em algum quintal gramado coberta de flores roxas. Vi o ocaso terminar sua jornada em seus diferentes pontos. Contemplei o horizonte infinito visto do fim de alguma rua no centro da cidade. Corri por ruas vazias. Ouvi latidos vindo de quadras distantes. Postes com lâmpadas amarelas. O balanço da praça central. Os bares que não dou nome. O parque que, no inverno, recebe infinitos tons de vermelho do ocaso me fazendo querer sonhar com ele pela noite. Desenhei em mim cores de desejo, de intensidade, de melancolia, de uma infinita vontade de permanecer amando em Solitude. Eu não sei o que te fiz, se eu pedi demais ou se estava sendo distraída. Se eu pudesse, nadaria em teu colo entrando pelos seus profundos olhos de cores musgos. Assim, entenderia que Soledade é apenas um fragmento dos caminhos que preciso percorrer pelo seu corpo.







contradições
tão simplórias
como o medo que dissipa o medo
a luz que ofusca o brilho
o escuro que nada esconde
e o amor que tudo conduz
Associo-te a poesia ao sexo, assim como o corpo para o mar.
o infinito

do amor eu quero a essência
porque a essência não cabe em um corpo

se eu coubesse em uma poesia
certamente morreria sufocada
Tentâmen Sensus V

decoro sobre o corpo

tato
caminha sobre meu corpo
que é um mundo
com lugares inexplorados
que nem eu mesma pude conhecer
o pudor que nos aprisiona
o medo que nos aprisiona
chegam de barco afim de explorar terras desconhecidas
de prazer
para o seu bel prazer
desconhecendo que
há profundos caminhos que os levam
para lugar algum
e partem em busca de novas terras
ultrapassando o limite dos caminhos
e morrem antes de conhecerem
a grandeza de uma alma
cujo as terras mais profundas
estão infindo em feridas


Tentâmen Sensus IV

ensaio sobre decoro

eu gosto de você
do seu jeito de andar
do seu jeito de mexer o cabelo 
do jeito que você sorri com os olhos
eu gosto da sua teimosia 
da sua falta de lábia
e do seu beijo travado 
eu gosto da maneira como me segura
com seus braços
com seu colo
e o seus olhos castanhos
eu gosto dessa sua tentativa 
de mostrar que sabe o que está fazendo 
mesmo que não saiba de absolutamente nada
eu gosto da maneira como você se encanta
pelas coisas que não são do seu feitio
mesmo que de maneira cega 
não veja que tudo é tão pouco
dentro daquilo que cabe dentro da gente
eu gosto da sua perdição
da sua pretensão 
por querer tão pouco o que ainda não te cabe
e você segue vazio 
por estar tão cheio 
de coisas atravessadas  
mas sim, eu gosto de você 
do que vejo de você
do que espero de você
e do que te sinto
mas por mais que eu goste tanto de gostar de você
sigo meu caminho nos postergando 
por gostar muito menos de você
do quanto eu gosto de mim 

Tentâmen Sensus III

Enquanto toca Seven Seconds eu vou até a cozinha e preparo um chá. Em três passos eu caminho até o lado mais puro das minhas lembranças: o céu estava calmo depois de desabar seu choro. O subúrbio do Rio de Janeiro recebeu um arco-íris de infinitas cores naquela tarde de primavera. A comunidade nunca foi tão calma. Algumas casas alagadas, alguns corações partidos. Mas o céu nos refletia nosso próprio brilho ultrapassando qualquer casebre malfeito de tijolos. Eu jurava que um dia aquilo tudo ia ter algum sentido em algum momento. Mas o sentido estava ali dentro de mim, o tempo todo esteve e sempre vai estar.

Um arco-íris intenso de infinitas cores dentro do meu peito que repousa nos reflexos das poças d'água que a chuva abriga nos buracos esquecidos pelo chão.
Tentâmen Sensus II 

De todas as coisas que ocupam a minha mente, insisto em memórias vazias de coisas que até então não tinha nenhuma importância. Ando buscando aquilo que esteja interligado com tudo o que está acontecendo agora. Esse turbilhão de sentimentos revirados e vivos dentro do meu peito, fazendo de mim um mero fantoche dos meus medos, que não consigo controlar; das minhas expectativas, que não consigo deixar passar e por fim, dessa paixão intensa que transborda e sigo desperdiçando com pessoas que não compreendem que tenho pressa. Elas não têm culpa. Eu não tenho culpa.
Eu aprendi a ter compaixão. 
Tentâmen Sensus I


Saio do escritório as seis e pego a lotação as seis e onze.
Vejo por três dias seguidos uma nebulosa vestida de humano.
Primeiro dia: As cores eram verde com purpurinas azuis.
Segundo dia: Aproximou-se da lua quando pegou a lotação.
Terceiro dia: A nebulosa observara a chuva pensando em Júpiter, mas seu olhar era Plutão.
Estar sozinha me ensinou que essa coisa de ser livre é pura ilusão. Há quem diga que ter caminhos a percorrer durante uma vida ou uma tarde inteira e não ter que explicar absolutamente nada para ninguém é uma condição de liberdade. As estradas que peguei no caminho entre sudeste e o sul não levaram a lugar nenhum e isso é simples: O caminho está na alma, o ser humano é um parasita, o amor está nas entrelinhas e no fundo, sempre deixamos algo preso em alguém pelos caminhos. 

Faz parte do instinto.
olhar a vida do cais
e as ondas vindo de longe
sem saber o ponto de sua quebra
eu me escondo em uma onda
acreditando estar longe do perigo da queda
finalmente alcanço a orla
a mesma onda na qual eu mergulhei em delírio
quebra tão incompassível em minhas costas
vísceras
coração
sofrimento


o mar é imprevisível


a vida é