Para Soledade.

Depois de uma longa espera pelo próximo ônibus na rodoviária da capital do Rio Grande do Sul, acordei pela manhã em uma estrada coberta por Hortências. O ar era incrivelmente fresco. O campo era mais verde do que a do cerrado e o outono me era o mais afetuoso inverno. Os pampas sumiam no horizonte e as plantações eram iluminadas pela aurora. Eu estava tão sonolenta que mal conseguia ouvir o barulho do motor do ônibus e entre as súbitas escalas de cochilo, me despertavam os olhos para cada paisagem diferente. Às vezes, o sol sumia entre infinitas filas de araucárias de alguma estrada mais estreita, depois faziam-se riscos de sol iluminando de forma simétrica o corredor do ônibus para que, em seguida, fosse visto pela janela algum outro campo de alguma plantação de trigo que, mais uma vez, fora iluminado pelo sol. 
Antes de ir para Soledade, um ano antes, eu precisei pegar um avião até Córdova, de Córdova para Mendoza e de Mendoza, para Santiago do Chile. Depois de aguardar algumas horas pelo próximo vôo, chego a Punta Arenas com a trilha em pauta para o fim do trajeto: Puerto Natales. 
De longe só se via o contraste de montanhas e as pequenas casas coloridas de uma cidade de apenas dezenove mil habitantes. Um frio congelante em pleno verão, aquecedores, paredes de aquarela, tarde ensolarada e por fim, ruas desertas e vazias. No centro da cidade, uma pequena praça para contemplação. Os bares com mesas nas calçadas não existia nesse lado da Patagônia. As casas eram de madeira, os bares eram de madeira e as portas ficavam sempre fechadas por causa do frio. As principais bebidas eram vinho e uísque e as músicas, por surpresa, eram bem familiares.
Eu não sei bem o que era. Também o cansaço, a maldita turbulência pega atravessando as cordilheiras e ao mesmo tempo, o alívio por não ter feito o trajeto de carro. Puerto Natales foi como encontrar um baú de ouro no fim de um Arco-íris. Se existe um espaço na consciência onde os desejos ocultos ficam guardados, lá estava uma cidade pequena escondida pela Neblina, pelo vasto campo vazio e a contemplação de um horizonte infinito, mesmo que, dessa vez, não rodeada por montanhas cobertas de gelo.
Diferente de Puerto Natales, Soledade é uma cidade com o dobro do tamanho, tanto em população como em espaço. Atrás da Rodoviária Municipal, alguns Pinheiros fazem música quando o vento resolvem tocá-los. O silêncio é confortante e o outono é tão leve quanto as folhas secas jogadas no gramado das praças. Não lembro quantas avenidas tinha, não que isso importe. Não lembro se já andei por toda a cidade, não que isso também importe. Mas comecei a notar que tudo se encaixava desde o primeiro momento que pisei meus pés naquela cidade. Mesmo que, no momento, eu não conhecesse alguém que me fizesse querer ficar. Bastando a insistência dos meus desejos mais pirrônicos, eu fiquei.
Eu a fotografei com meus olhos em pleno inverno quando as ruas ficavam cobertas por neblina em vespertino. Eu a escrevi poesias na vista de um apartamento grande e vazio. Especulando o silêncio nos caminhos entre um bar e outro, a espera de nada. Andei por ruas pavimentadas por pedras e asfalto liso. Observei a chuva cair em algum quintal gramado coberta de flores roxas. Vi o ocaso terminar sua jornada em seus diferentes pontos. Contemplei o horizonte infinito visto do fim de alguma rua no centro da cidade. Corri por ruas vazias. Ouvi latidos vindo de quadras distantes. Postes com lâmpadas amarelas. O balanço da praça central. Os bares que não dou nome. O parque que, no inverno, recebe infinitos tons de vermelho do ocaso me fazendo querer sonhar com ele pela noite. Desenhei em mim cores de desejo, de intensidade, de melancolia, de uma infinita vontade de permanecer amando em Solitude. Eu não sei o que te fiz, se eu pedi demais ou se estava sendo distraída. Se eu pudesse, nadaria em teu colo entrando pelos seus profundos olhos de cores musgos. Assim, entenderia que Soledade é apenas um fragmento dos caminhos que preciso percorrer pelo seu corpo.







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